27.12.04


mastodon >> leviathan

Mastodon, em inglês, é o nome que se dá ao gigantesco animal, parente dos elefantes, que habitou a Terra em priscas eras. Mastodon, a banda, é uma formação oriunda de Atlanta, nos Estados Unidos, fascinada por forças e grandezas intangíveis e que parece fazer desse fascínio o motivo de sua existência. Em miúdos, o conjunto adotou, como mote principal, o transformar de sentimentos em história, com todas as nuances que a empreitada necessita se almejar ser levada a sério. Megalomania aqui tem um significado puríssimo. Não é doença, não é defeito. É, sim, efeito do ambiente em que estamos. Ninguém é alheio à sua influência.

No clássico romance “Moby Dick”, de 1851, o escritor norte-americano Herman Melville desenhou um painel fantástico sobre o conflito do homem com seu ambiente. Nele, o mal pode surgir tanto na figura do Capitão Ahab como na da terrível baleia branca que nomeia a obra. De um lado, o ser racional, a civilização, com sua moral infalível, seus vícios e complexidades, que se desdobram em infinitas variáveis sem solução. Do outro, o irracional, representado no corpo colossal do animal, cuja necessidade de se alimentar é sua única motivação - não há complexidade, a trivialidade emerge imponente. De uma aparente história infantil, “Moby Dick” resvala em questões profundas e pertinentes, que renderiam um belíssimo álbum, se produzido por mãos competentes.

O Mastodon, então, com sua mania de gigantismos, resolveu encarar o desafio de fazer um álbum baseado na obra supracitada de Melville, tomando todas as precauções para não só não desvirtuar a obra como, principalmente e felizmente, não torná-la banal. O resultado é “Leviathan”, conceitual até a medula. À primeira vista, dois pontos saltam aos olhos: o uso do elemento “água” como tom predominante (o álbum anterior, “Remission”, foi baseado no elemento “fogo” – os próximos deverão trazer novas alusões à essa simbologia, presente na parte visual das apresentações ao vivo) e a belíssima arte de capa, novamente assinada por Paul Romano. O conceito do disco foi ampliado à parte sonora, com resultados animadores. Todas as nuances da eterna batalha entre Ahab e Moby Dick aparecem nas épicas composições do quarteto, formado por Brent Hinds (guitarra e vocais), Brann Dailor (um monstro na bateria), Troy Sanders (baixo e vocais) e Bill Kelliher (guitarra), que têm a grande qualidade de não desembocarem em suítes gigantes, tão caras às bandas masturba-prog. Se a New Wave Of British Heavy Metal, Black Sabbath, King Crimson e Discharge fizessem sexo grupal, o resultado seria o Mastodon.

Nos anos 80, Sonic Youth, Dinosaur Jr. e Butthole Surfers lideraram uma geração responsável pela desconstrução do hardcore de então, fazendo um som não menos barulhento. Os anos passaram, o hardcore se transformou, se adaptou, ressurgiu, inclusive, em levantes saudosistas. Agora, nos anos 00, Mastodon lidera, junto com o Dillinger Escape Plan e o Isis, a segunda desconstrução do estilo. Ninguém sabe o que vai acontecer daqui pra frente. Mas, como diria Hermeto Pascoal, se “o futuro é o presente”, então o futuro é promissor.

26.12.04


death after death >> motherfuckers of metal

Essa resenha poderia facilmente ter sido retirada da consagrada bíblia virtual Crime Library, afinal, o site americano se tornou famoso em função de seu arquivo de atrocidades mórbidas cometidas por desajustados sociais em diversos pontos da História. Como é sabido, crimes hediondos se tornam legais depois que se transformam em história. Quem freqüentou colônia de férias alguma vez na vida há de concordar. Levando essa máxima ao limite, eis que temos em mãos o petardo de estréia do abominável Death After Death.

No caso, os desajustados sociais foram batizados de Dennis Pombo e André Delacroix, guitarrista e baterista, respectivamente, da banda de doom metal carioca Imago Mortis. Cansados de ouvir e reouvir as aventuras de Jeffrey Dahmer em rodinhas de amigos, a dupla resolveu cometer sua própria obscenidade, um estupro auricular chamado “Motherfuckers of Metal”, que reúne Manowar, fetichismo, homofobia de araque, King Diamond, radicalismo heavy metal de plástico, Outkast, Frank Zappa, mariachis hardcore, experimentos com loops, discurso satanicômico e Led Zeppelin em um coquetel sonoro demolidor, que expande as possibilidades do bom e velho crossover dos anos 80. As 32 faixas se desenrolam em cerca de 20 minutos e trazem dezenas de referências impregnadas – dá pra brincar de adivinhação com o disco.

As letras são um caso à parte e mereciam impressão no encarte. Dennis Pombo (guitarra e baixo) surge como uma mistura de Rocky George, Kerry King e Zakk Wylde sob efeito de esteróides. A “interpretação” de Delacroix, que aqui ataca de vocalista, é impagável e remete ao Macabre, este sim um literal representante do metal à moda Crime Library. Faixas como “Kill Your Boss”, “Billy Kincaid”, “Leech” (a melhor de todas) e “Chris” são divertidas em sua dimensão perversa e mostram que é possível misturar tendências do metal extremo com criatividade, sem que seja necessário mergulhar em divagações existenciais, incursões literárias ou manuais de conservatório musical. A poesia do barulhocore está justamente na capacidade de fazer revoluções pessoais sem precisar falar muito. Sua existência, por si só, é a prova disso.

Fãs de S.O.D., D.R.I., Cro-Mags, Napalm Death (fase “Diatribes”), Mortician, Pig Destroyer, Murphy’s Law, Mayhem antigo, Ratos de Porão, Sick Terror e Macabre têm em “Motherfuckers of Metal” um prato farto. O Death After Death (ou D.A.D., simplificando) marca o surgimento do Laugh Grind em um álbum que vai abrir a cabeça de muita gente para os sons mais degradantes dos porões mundo afora. A machadadas, é claro. Um clássico da sujeira moderna.

Para adquirir o álbum (é baratinho e vale muito, cara-pálida), envie um e-mail para
andre@imagomortis.com ou pombo@imagomortis.com.br.

23.12.04


lavajato >> assim como tah

O grande físico alemão Albert Einstein (1879-1955) gostava de dizer que “tudo é relativo”, baby. O certo e o errado, por exemplo. Logo, não é de se admirar que exista gente que ache certo praticar o errado. O psicótico conglomerado antimusical carioca Lavajato é um desses honoráveis representantes do apolítico e do imoral. E eles estão certos!

Como uma bizarra experiência de aborto com chave de fenda nos cafundós de Imbariê, o Lavajato é um mistério. A única informação apurada (!) que temos sobre ele(s) é que sua formação pode ter até 35 pessoas e suas criações são fruto dos neurônios derretidos de Mortimer Só, autor de algumas das letras mais impressionantes que você vai encontrar no cenário pop rock (sic) brasileiro. Mais do que construir o caos, o Lavajato o reconstrói em seus próprios termos. Como alguém bacana disse há alguns anos, se nós (eu e você) somos robôs, então chegou a hora de consertar a fiação dos humanos. Tapa na cara e soco no estômago. Sim, nós temos o terror.

Minimalismo extremo, manipulação de efeitos, ruído, silêncio. Pára, continua. Isso é muito bom. Poesia concreta e paranóia. Stockhausen toma chá com o demônio. Você retira os fones de ouvido, xinga a mãe de meio mundo. Merzbow pulando corda no varal. Isso é irritantemente bom. Fátima Bernardes e William Bonner vão a uma casa de swing. Notícias trocadas. Nada parece fazer sentido. Pára, continua. O discman parece estar com defeito, mas é assim mesmo. Doces diet. Arafat. Jim O’Rourke sodomiza cães com sua guitarra preparada. Ei, isso tudo é familiar. Ruído, silêncio. Desordem e retrocesso. Atavismo. Você coça a cabeça, dá um espirro. “Mantra da agonia”. Escola alemã desmembrada, porém orgulhosa. Captain Beefheart virou ídolo pop em 23 países. O terror é nosso. Reacionário, eu? Liquidificadores em harmonia. Sons desconexos, porém familiares. Você é capaz de ir até onde? “Sim, eu sou incapaz de mudar meu destino”. Metal Machine Music. Timbres inacreditáveis. John Cage sorri. O século XX acabou e você não percebeu. Vivemos em sociedade? Bomba atômica e xenofobia. “Mulheres sádicas”. Saímos do bueiro. Estupraram o Gato Félix. O que é a lei? Você acredita em lei? Ocaso. Versos que terminam sem que você note que eles começaram. Fim, início, meio. Ansiedade? “Janeiro sem proteção”. Pára, continua. Somos cobaias.

Ouvir “Assim como tah”, primeiro álbum do Lavajato, é testemunhar a busca de alguém/algum por sentimentos que ninguém sabe, ninguém viu. Sentimentos que a humanidade não conhece, porque não os merece. Compre briga, é baratinho. “Assim como tah”, de 2001, é o início de uma saga desbravadora pelos palcos, discmans e placas de som da vida afora. Depois dele, a banda (?) lançou o álbum “ø mínimo recomendável”, em 2003, além de meia dúzia de EPs. Atualmente estão preparando um tributo ao grande Ed Lincoln (excelente idéia, só não chamem o Ed Motta!), tocando e produzindo música original, com cabecismo e coração. Sua gravadora (ou psicoempresa, como prefere ser chamada), Truma Records, faz um ótimo trabalho no underground brasileiro, lançando discos de gente com muita garganta e pouca voz, à procura não de meros ouvintes, e sim participantes. Música deveria ser sempre assim. É devoção, é arte. E nisso, camarada, eles estão certos. Einstein estava errado. Compre briga, é baratinho.

Se você está interessado em conhecer o som do Lavajato e dos outros artistas da Truma Records (Sensorial Estéreo, Tonguemish Trio, Combo Recife de Improviso e Farta Cecília), acesse
www.umbigogroup.com.br/trumarecords, ou envie um e-mail para umbigogroup@superig.com.br.